Afinal, esse comportamento é ou não TDAH?
- Vanessa Moraes

- há 1 dia
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Por muito tempo, o Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade (TDAH) foi visto como uma condição exclusiva da infância, algo que a criança "levava para a escola" e que, supostamente, desaparecia com o crescimento. Hoje sabemos que não é bem assim. Uma parcela significativa das pessoas diagnosticadas na infância continua apresentando sintomas importantes na vida adulta, e muitas outras chegam à vida adulta sem nunca terem sido diagnosticadas, convivendo por anos com dificuldades que atribuem a "falta de força de vontade", "preguiça" ou "desorganização crônica".
Há também quem diga: "Ah... Eu era assim tabém... depois melhora". Será mesmo? A pessoa muda ou se adapta?

Neste artigo, vou explicar o que caracteriza o TDAH, quais comportamentos podem ser sinais de alerta na adolescência e vida adulta e como funciona o processo de avaliação neuropsicológica.
O que é o TDAH, afinal?
O TDAH é um transtorno neurobiológico que não tem relação com inteligência, caráter ou disciplina. Ele se manifesta, de forma geral, em três grandes grupos de sintomas:
Desatenção: dificuldade de manter o foco, de se organizar e de concluir tarefas.
Impulsividade: agir ou falar antes de pensar, dificuldade de esperar a vez, interromper os outros.
Hiperatividade: sensação de inquietação constante, dificuldade de "desligar", necessidade de estar sempre em movimento (que, no adulto, pode aparecer mais como uma inquietação interna do que como agitação motora visível).
Nem toda pessoa com TDAH apresenta os três grupos com a mesma intensidade. Existem perfis mais voltados à desatenção (às vezes chamados informalmente de "TDA", sem o componente hiperativo) e perfis combinados, com sintomas de todas as categorias.
Sinais de alerta: Comportamentos que merecem atenção no Adolescente e Adulto
Diferente da criança, que costuma manifestar hiperatividade de forma mais evidente (correr, não parar sentada), o adolescente e adulto com TDAH tende a expressar os sintomas de maneira mais sutil e, muitas vezes, mais ligada ao funcionamento nos estudos, no trabalho e nos relacionamentos. Alguns comportamentos que podem indicar TDAH:
Relacionados à atenção
Dificuldade recorrente de manter o foco em tarefas, reuniões ou leituras.
Distração fácil diante de estímulos externos (ou mesmo dos próprios pensamentos).
Procrastinação frequente, especialmente em tarefas que exigem esforço mental prolongado.
Dificuldade de organizar prazos, compromissos e pertences pessoais.
Esquecimentos constantes: contas, compromissos, objetos.
Dificuldade de terminar o que começa, indo de uma tarefa a outra sem concluir nenhuma.
Relacionados à impulsividade
Interromper conversas ou responder antes que a pergunta termine.
Tomar decisões importantes (financeiras, profissionais, afetivas) de forma precipitada.
Dizer coisas sem filtro e se arrepender depois.
Dificuldade de esperar a vez, seja no trânsito, em filas ou em conversas.
Relacionados à hiperatividade/inquietação
Sensação interna de estar sempre "ligado", como se tivesse um motor.
Dificuldade de relaxar ou de ficar parado em atividades tranquilas.
Necessidade de estar sempre fazendo várias coisas ao mesmo tempo.
Um ponto importante: a maioria das pessoas se identifica com alguns desses comportamentos vez ou outra — isso é normal e não significa TDAH. O que diferencia um traço de personalidade de um transtorno é a frequência, a intensidade e, principalmente, o prejuízo real que esses comportamentos causam na vida da pessoa. Quando as dificuldades atrapalham de forma significativa o desempenho no trabalho, os estudos ou os relacionamentos e isso acontece em mais de um contexto da vida, não só em casa ou só no trabalho, é hora de investigar com mais cuidado.
Outro sinal relevante é a história de vida: A pessoa que tem o TDAH costuma ter indícios de que essas dificuldades já existiam desde a infância ou adolescência, mesmo que de forma menos perceptível, e que se mantiveram ao longo do tempo, ainda que a forma como aparecem possa mudar conforme as exigências da vida adulta aumentam. Mas os comportamentos não surgem a partir de determinado tempo de vida. Em menor ou maior grau, indícios já estão lá.
Por que uma autoavaliação não é suficiente?
É comum a pessoa se reconhecer em listas de sintomas na internet e concluir sozinha que "tem TDAH". Isso é compreensível, mas arriscado: muitos desses sintomas, como dificuldade de concentração, procrastinação, esquecimentos, também aparecem em quadros de ansiedade, depressão, privação de sono, estresse crônico ou mesmo em fases de sobrecarga da vida. Não são exclusivos do TDAH. Um diagnóstico correto depende de uma avaliação estruturada, feita por profissional qualificado, que consiga diferenciar o TDAH de outras condições que se manifestam de forma parecida e também identificar quando mais de uma condição está presente ao mesmo tempo, o que é bastante comum.
Como funciona uma Avaliação Neuropsicológica para investigação de TDAH:
O processo de avaliação costuma envolver algumas etapas complementares:
Entrevista clínica aprofundada: levantamento da história de vida, do desenvolvimento na infância e adolescência, do funcionamento acadêmico e profissional, e do impacto atual das dificuldades no dia a dia.
Aplicação de critérios diagnósticos reconhecidos: o profissional avalia se os sintomas de desatenção e/ou hiperatividade-impulsividade estão presentes em número e intensidade suficientes, se surgiram ainda no início da vida, se causam prejuízo em pelo menos dois contextos diferentes (por exemplo, trabalho e vida pessoal) e se não são mais bem explicados por outro transtorno.
Escalas e questionários padronizados: instrumentos de autoavaliação e, quando possível, relatos de terceiros (familiares, parceiros ou pessoas que conheceram o paciente na infância) ajudam a construir um panorama mais completo e menos dependente apenas da percepção da própria pessoa sobre si.
Testes neuropsicológicos: avaliam funções como atenção sustentada, memória de trabalho, funções executivas (planejamento, organização, controle inibitório) e velocidade de processamento, fornecendo dados objetivos que complementam a entrevista.
Diagnóstico diferencial: investigação de outras condições que podem causar sintomas semelhantes ou coexistir com o TDAH, como transtornos de ansiedade, depressão, transtornos do sono ou de aprendizagem.
Devolutiva e orientação: ao final, o profissional apresenta os resultados de forma clara, explica o que foi encontrado e orienta sobre os próximos passos — que podem incluir acompanhamento psicológico, psiquiátrico ou estratégias específicas de manejo dos sintomas.
Esse processo não serve apenas para "colocar um rótulo". Ele existe para entender com profundidade o funcionamento da pessoa e construir, a partir disso, um plano de cuidado que realmente faça sentido para a sua realidade.
Reconhecer os sinais é o primeiro passo
Se você se identificou com boa parte do que foi descrito aqui e sente que essas dificuldades vêm afetando sua vida há muito tempo, vale a pena buscar uma avaliação especializada. Entender de onde vêm essas dificuldades é o que abre caminho para lidar com elas de forma mais eficaz — e, muitas vezes, para se livrar de anos de autocrítica por questões que nunca foram sobre falta de esforço.
Precisa investigar se você ou seu filho(a) adolescente têm TDAH?
Sou Neuropsicóloga e trabalho com investigação de TDAH em adolescentes e adultos. Se você se reconheceu neste texto, ou se tem dúvidas sobre o funcionamento atencional, executivo ou comportamental seu ou de alguém da família, entre em contato para conversarmos sobre o processo de avaliação neuropsicológica e como ele pode te ajudar a entender melhor o que está acontecendo.

Vanessa Moraes | CRP 02/13992
Psicóloga Clínica & Neuropsicóloga
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